sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Vera Paz



A praia da Vera Paz, quando ainda era digna de ser chamada por este nome, era uma das favoritas de meu pai. Na primeira das imagens acima, uma foto daquela época. Embaixo, uma foto tirada por meu cunhado, há poucos dias, onde "poso" em meio ao mato, esgotos, lixo, lama e urubus daquilo em que se transformou nossa bela praia. Abaixo, transcrevo 3 poemas feitos por meu pai com a praia como tema. Em primeiro lugar, a muito conhecida Canção da Vera Paz. com música de seu compadre Isoca, foi cantada por seus amigos e parentes quando seu caixão adentrava no túmulo. A segunda, também musicada pelo maestro Isoca, já mostra a sua tristeza desgostosa com o fim de nossa bela praia (Adeus, Vera Paz). A última, "Maldito Tributo", menos conhecida, mostra um tema bem presente naquilo que ele escreveu: a desilução com o preço que o progresso cobra. Quinze dias antes de morrer, no último passeio que fez pela cidade, papai foi levado por meu irmão Toninho e meu cunhado Edson para ver a Vera Paz. Se ainda escrevesse, certamente sairia um poema ainda mais triste sobre aquele local.



Canção da Vera Paz
27/09/1966

Música de Wilson Fonseca
Raras coisas desta vida
São gostosas como a ida
Em noite de lua cheia
À Vera Paz afamada
Pra comer uma peixada
Sobre o alvo chão de areia

E se há um violão
Ponteando uma canção
Como fundo musical,
A felicidade é tanta
Que a gente até se espanta,
Pensando não ser real.

ESTRIBILHO
Teu luar, ó “Vera Paz”
Saudade pra  gente traz!

Adeus,  Vera Paz
31/03/1973
Música de Wilson Fonseca

O progresso foi chegando...
E eu nem sei direito quando
A tristeza aconteceu.
Cais do Porto, essa esperança
Dos meus tempos de criança
Hoje é sonho que viveu!
Mas, enquanto se trabalha
O reverso da medalha
Amargura uma cidade:
Nossa praia acolhedora,
Vera Paz encantadora,
Lá se foi, virou saudade!...

ESTRIBILHO
Violões não mais terás...
Adeus, linda Vera Paz!...

Nem serestas, nem luares...
Violão, se tu chorares,
Também choro, não resisto.
Modernices são bem vindas,
Mas destroem coisas lindas
Quanta mágoa eu sinto disto!
Nos arquivos da memória
Incluí mais uma história
Desta vida tão fugaz:
Chegará bem mais conforto
Nos navios do Cais do Porto,
Mas...findou-se a Vera Paz!

Maldito Tributo
26/02/1975

Quando boiava, linda, lá no azul celeste,
A Lua peregrina, alcovitando amores,
Quanta felicidade, ó Vera Paz, nos deste,
Ao som dos violões e à voz dos teus cantores!...

Nas cinzas do que foi, quase a chorar, ingresso...
Todo um passado fica para sempre morto,
Porque, como um tributo pago ao tal “progresso”,
A nossa Vera Paz deu vez ao Cais do Porto!

Contudo, que fazer? O fato consumado
Aí está, pungindo as almas santarenas.
Pior ainda: a esteira do trator malvado,
Não matará ( ó meu Deus!) a Vera Paz apenas!

Também já vão sumindo impiedosamente
(Para não blasfemar, só tendo muita fé!)
Outros velhos xodós do coração da gente:
Laguinho...Mapiri...Adeus, Maria José!

O nosso enlevo foste!Oh! Que cartão-postal!...
Por isso é que dói tanto a amarga realidade:
A mais inspiradora praia regional
Hoje é lembrança...verso...lágrima ...e saudade!...

Peixada na praia

Os últimos versos deste poema estão entre os que mais gosto na obra de meu pai. Depois que ele se foi "no Tapajós, descendo lentamente, uma saudade passa, de bubuia".



Peixada na praia

Êta, meu mano, luarzão bacana!
Vamos comer tucunaré na praia!
Arruma lenha, faz o fogo e abana,
Pois és doutor formado em piracaia...

Farinha, sal, pimenta malagueta,
Limão, cachaça... E a turma senta a peia!
Quem não tiver saúde, não se meta
Numa peixada na "Coroa de Areia"!

Entre os coqueiros o luar vadia
E o vento atiça as brasas do moquém...
O peixe gordo nos espetos chia...
Como é gostosa a vida em Santarém!...

Há uma viola que enternece a gente,
A pontear velha canção tapuia...
No Tapajós, descendo lentamente,
Uma saudade passa, de bubuia...

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Passeio à Maria José


Num passeio à praia Maria José em 1952, da esquerda para a direita: Carlos Serruya, Diorlando Pereira, Wilson Chayb, papai, Machadinho e tio Ércio, ainda garoto. O barco que aparece lá atrás, o "Líbano", que levou todos à praia, pertencia a Nicolau Demetrio.

A lua é minha!

Foto: Emir Bemerguy Filho
Ao ver a bela lua que fez ontem, a primeira lua cheia após a morte de meu pai, lembrei do poema abaixo, que ele fez quando o homem ali pisou pela primeira vez, em julho de 1969:

A lua é minha!

Chegamos à Lua!
Incrível, senhores!
Retumbam tambores
Saudando os heróis 

Que voltam, triunfantes
De infinitas alturas,
Vencendo lonjuras
Varando arrebóis! 

Os homens exultam,
E em festas ruidosas
Envolvem de rosas
Os reis da amplidão. 

No instante em que o bando
Mil céus vai pisando,
Apenas fitando
Da Lua o clarão … 

Na Lua eu já ando
Há anos sem fim,
Mas nunca de mim
Ninguém se lembrou … 

Viajo às estrelas,
Navego aos planetas,
Conheço cometas
E anônimo sou … 

Não subo em foguetes …
Meu módulo é o verso
Apenas imerso
Na luz do luar … 

E sempre que entendo
Me lanço ao infinito
Num vôo bonito …
Que lindo é sonhar! 

Da Lua que eu ponho
Nos versos que faço
Não tiro pedaço
E amostras infestas … 

Suas ermas crateras,
Seus lúgubres mares
São mortos luares
De velhas serestas. 

“A Lua é nossa!”
Proclamam, realistas
Os tais cientistas …
Que farsa completa! 

Pois fiquem sabendo,
Ilustres doutores,
Que a Lua, senhores,
Pertence ao poetas!


Saudade Perfumada 2


Esta é o poema cujo nome acabou por denominar este blog.

SAUDADE PERFUMADA
Letra: Emir Bemerguy (1978)
Música: Vicente José Malheiros da Fonseca (2008)

As rosas sempre amaste enternecidamente,
Sobretudo as vermelhas, e, a sorrir, fazias
Ramalhetes bonitos que colocarias
Onde pudessem vê-los tu e toda gente.

Em teus sonhos azuis, jamais te veio à mente
Que às flores preferidas, cedo, ligarias
O teu destino, assim: nas breves alegrias,
Na morte ao pôr-do-sol, no aroma persistente.

Sendo rosa também, viveste quase nada:
Anoiteceu e, às pressas, foste convocada
Ao Céu, pelo Senhor, ó TELMA SUELY!…

Como fica, nas mãos, das pétalas o olor,
A nós resta um consolo imenso e encantador:
Sentimos teu perfume em tudo, tudo aqui!…

Saudade Perfumada 1

Saudade Perfumada (Vicente Fonseca e Emir Bemerguy) by emirbemerguy O título deste blog foi tirado de um poema feito por meu pai em homenagem à minha irmã Telma Suely, falecida aos 14 anos em 1978. O poema, que transcreverei em outro post, foi musicado posteriormente pelo desembargador Vicente Fonseca, filho do maestro Isoca. Papai foi parceiro musical de três gerações da família Fonseca: José Agostinho da Fonseca (1886-1945), Wilson Fonseca (1912-2002) e Vicente Fonseca (1948-). Segundo Vicente, a composição nunca foi gravada completa, com instrumentos e canto. A gravação que mostro é apenas instrumental, e foi feita pelo próprio Vicente. Estamos tentando conseguir uma gravação com voz, para mostrá-la aqui no blog.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Carta aos Amigos

O texto abaixo, intitulado "Carta Aberta aos Amigos", foi publicado no blog do Jeso por minha irmã Lila Bemerguy, em agradecimento às manifestações de carinho que recebemos quando da morte de nosso pai. Logo abaixo, a manifestação, após ler este texto, de uma amiga de nossa irmã Lourdinha (Cucá), que mora em Florianópolis, e nunca conheceu papai pessoalmente.

Nesta segunda-feira, 19, fará uma semana da morte de nosso pai, Emir. Nosso, porque falo em nome de meus irmãos e minha mãe. A filha Márcia já fez esses agradecimentos na igreja, mas fazemos questão de registrá-los aqui.

Durante esses dias, foram incontáveis os sentimentos de solidariedade que recebemos, principalmente nossa mãe, Berenice, que do alto de seus 80 anos, sofre a perda do seu poeta, marido, amor, companheiro de 53 anos de vida. Agradecemos imensamente a todos.

Nos dias que antecederam a morte do poeta, algumas pessoas foram, como disse minha mãe, “anjos”, que ajudaram de toda forma. O médico e amigo Erik Jennings, que há muitos anos atendia meu pai com todo carinho, paciência, como faria um filho.

Por conta de sua vida ocupada, pediu que tivéssemos outra referência médica. Levamos papai ao Dr. Luis Rodolfo Carneiro Filho, meu amigo de infância, que o atendeu. Nos últimos dias, nunca, em nenhum momento, nos deixou de dar esperanças, sempre presente, preocupado e amigo. Ao vê-lo, papai dizia: “O filho do meu amigão”, referindo-se ao pai do Luisinho, Luis Rodolfo Carneiro.

No hospital da Unimed, tivemos a felicidade de encontrar nas horas mais difíceis, o Dr. Fábio Botelho, que nos aconselhou e abraçou como um amigo. Os enfermeiros Hiago e Bruno, que passaram noites insones cuidando de papai, com amor de filhos. Toda equipe de enfermagem do hospital da Unimed, na pessoa da enfermeira Erlinda, que dedicaram carinho e atenção até o fim.

Carlos Eduardo, o “Dadinho”, e o gerente do hospital Unimed, Paulo, que sabem o quanto nos ajudaram. Junior Santos e Inês Miléo, amigos que nos ajudaram com providências após a morte, tão difíceis de serem tomadas no calor da emoção pela partida. A prefeita Maria do Carmo e o prefeito eleito Alexandre Von, que nesse momento esqueceram partidos e política, e se uniram na dor da perda de alguém muito querido para ambos. O padre Sidney Canto, que deu os últimos sacramentos ao meu pai, confortando-o em sua fé.

A todos os amigos, parentes, colegas da imprensa, que nos abraçaram e confortaram. A dor é imensa, pois como disse meu irmão Lúcio, a cidade perde o poeta, o escritor. Nós perdemos o pai, que nas horas limites de nossas vidas, nos apertava a mão, muitas vezes sem nada dizer, passando-nos segurança e fortaleza. O mais difícil da morte, acredito, como disse meu pai numa poesia, é “a presença esquisita dos ausentes”.

Continuamos a ver suas coisas, suas roupas, objetos, escritos, fotografias, sem a presença dele. Somente a lembrança, saudade e a certeza de que a vida vale a pena. Numa de suas pastas com coleções de textos e fragmentos de leitura que ele mais gostava, disse: “Passei 40 anos coletando esses fragmentos. A eternidade vai dizer se perdi meu tempo ou se valeu a pena”. E como valeu, pai!

Nesta semana, olhando algumas coisas deixadas por nosso pai, como escritos, pastas, CDs, fitas-cassete, nos demos conta daquilo que já sabíamos, mas nunca tivemos a chance de conhecer mais profundamente, pois a maior parte disso ele guardava, como dizia, “para a posteridade”: é riquíssima e vasta sua obra! Cada linha, cada verso, é a maior e mais linda herança que esse pai deixa aos seus filhos e à cidade que tanto amou.

Segue em paz, poeta. Aqui ficaremos nós, cuidando dos teus versos e da tua Berenice. 

(Lila Bemerguy)



Tirei um tempo para escutar com os olhos e enxergar com o coração a sabedoria traduzida em palavras reveladoras da ação deste ser humano de rara e singular beleza!
É verdade que nunca o vi e lamentavelmente não tive a grata benção e oportunidade de conhecê-lo.
Contudo, é como se o conhecesse, tamanha profundidade contida nesse conjunto de palavras tão sabiamente compostas, as quais, associadas ao teu amor revelado a nós em gestos e expressões de afeto com as quais sempre o trouxeste ao nosso meio, me leva agora às lágrimas! Estou profundamente emocionada e de modo muito especial pela última frase registrada no texto de uma filha profundamente agradecida! Lila! Que lindo! Tocou meu coração!
Comoveu-me de tal modo que parecia ouvi-la! Não é mesmo surpreendente!?!
Minha sensibilidade me diz que este momento foi único, absolutamente abençoado por Deus, fazendo reverberar em todo o céu que alcança o infinito, o agradecimento do Seu Emir! Poderia sim e mereceria chamá-lo de doutor, a exemplo do mais alto título acadêmico e este eu conheço! Todavia, escolherei a palavra Mestre! Sim, este ser humano de rara beleza será para sempre um MESTRE! Daqui da ilha de nossa bela e Santa Catarina, em plena primavera, Seu Emir tem admiradores e admiradoras que esperam e desejam ver algum dia, e que não demore, todo esse legado deixado para a posteridade!
 Obrigada, querida irmã de alma! Agradeça a esta linda e grandiosa família por compartilhar a vida, a obra e o amor de um Mestre com um afeto que não se encerra!
 Finalizo tomando por empréstimo as palavras de João Guimarães Rosa, da obra Grande Sertão Veredas: Mestre não é quem ensina, mas quem de repente, aprende! Até o final de sua vida, Seu Emir ensinou que é sempre tempo de aprender! Como educadora que sou creio e professo essa certeza, que se confirma e se eterniza no mais lindo sentido da experiência de vida de uma pessoa como esta! Então, se me permite: ao Nosso Mestre, com Carinho e gratidão!
 Com todo carinho,
Maria Conceição - Cuca

domingo, 25 de novembro de 2012

Depoimento

Depoimento dado por meu pai em 2010 a Juliana Geller sobre Fordlândia e Belterra, em que ele fala de meu avô que trabalhou na companhia Ford em Fordlândia, onde papai nasceu, e depois foi para Belterra, quando as operações principais da companhia se transferiram para lá. Devido a um AVC, ele já tinha uma certa dificuldade em falar algumas palavras. O depoimento faz parte do blog "Sangue, Suor e Seringais", de Juliana Geller sobre Fordlândia e Belterra

Hora da Prece



Este poema de meu pai foi feito quando da morte do grande escritor e poeta santareno Paulo Rodrigues dos Santos. Quando o caixão de papai entrava no jazigo, meu irmão Toninho leu este texto, como uma última homenagem ao nosso poeta:

HORA DE PRECE
(À memória do amigo Paulo Rodrigues dos Santos)

Poetas, meu Deus,
No instante em que os levas
Reduzes a trevas
Intenso clarão!
Cantando os teus astros
Se vivem os vates,
Por que os abates,
Os matas, então?

A lua lagrima...
Seu pranto orvalhado
Faz úmido o prado,
E diz ela assim:
“Dos lindos poemas
Eu sou testemunha
Que o bardo compunha
Olhando pra mim.”

A bela cidade
Que tanto ele amava
E em versos cantava
De raro primor,
À beira do esquife
Detém-se, rezando,
E atira, chorando,
Lá dentro uma flor!...

Saudade... Tristeza...
Nos olhos da gente
A lágrima ardente
Desponta, indiscreta...
A estrela se apaga...
A rosa fenece
A hora é de prece:
Morreu o poeta!...

15/04/1974

Casamento

Subindo a rua Bacuri

Casados!...
No dia 21 de junho de 1958, às cinco horas da tarde, meu pai e minha mãe se casaram em Óbidos (PA),onde morava a família dela. O curioso é que minha mãe, trazida pelo seu pai e demais familiares, foi a pé para a igreja, levada por seu pai e demais familiares, subindo a famosa rua Bacuri, onde ficava a casa de seus pais, como mostra a primeira foto. Era o início de um casamento feliz, que durou 53 anos e produziu oito filhos, seis biológicos e dois adotivos.